terça-feira, 28 de outubro de 2008

Nova Ordem Mundial - Vigilância

Vigilância em rede


Nas prateleiras, nas baladas ou nos carros,


as etiquetas inteligentes revelam segredos


dos clientes e evitam as fraudes





Mariana Barros


Ciborgue: o implante que fiscaliza o estoque é o mesmo que controla quem bebe mais numa noitada


Barcelona, na Espanha, sempre foi a metrópole das novidades. Dessa vez, uma de suas casas noturnas, a Baja Beach Club, criou um sistema ousado para acabar com a dor de cabeça de quem costuma perder o cartão de consumo do bar depois de tomar a segunda dose. Para entrar na boate, cada cliente recebe um implante de chip, inserido na pele com uma seringa. Do tamanho de um grão de arroz, o microprocessador Verichip emite sinais de rádio e tem um código único, como se fosse um RG. Em troca de trânsito livre a informações valiosas, como suas preferências e movimentação financeira, o consumidor pode entrar e sair da balada, consumir à vontade e acessar as áreas vip. De quebra, não enfrenta mais filas no caixa. Basta passar diante de um leitor, que ele calcula sua conta. Ganha-se praticidade, perde-se privacidade.


Chamada de RFID, abreviação em inglês para identificação via radiofrequência,


a tecnologia instiga a imaginação dos comerciantes e provoca arrepios nos defensores dos direitos civis. A emissão constante do sinal de rádio permite


saber, a qualquer momento, onde está a pessoa "chipada". Esse monitora-


mento em tempo real é a febre na indústria da segurança e uma arma contra sequestros. E será usado pela fábrica de armas FN Manufacturing para controlar


o uso de seu arsenal. Implantado sob a pele da mão do policial, o chip emitirá


ondas capazes de desbloquear o gatilho da arma. Nas mãos de bandidos e crianças, ela não funcionaria.


Por oferecer grau elevado de controle e fiscalização, as etiquetas inteligentes devem estampar quase tudo, desde roupas, carro e tevê até embalagem de xampu. Por enquanto, a superetiqueta está restrita ao controle de estoque, onde evita erros na contagem e desvio de mercadorias. Dentro de 20 anos, ela ganhará as prateleiras. Será o fim das filas no caixa do supermercado. Quando atravessar um portal, tudo o que estiver no carrinho será computado, sem que se remova um único produto. Por fim, o valor será debitado na conta corrente do cliente.













Promessa: no supermercado, o substituto do código de barras vai eliminar as filas no caixa

Monitoramento - Informações como data de validade, local de fabricação e garantia estarão contidas no chip estampado na embalagem do produto. Será possível até monitorar epidemias como o mal da vaca louca ou a gripe do frango. Mercadorias vindas de local sob risco de contaminação serão isoladas facilmente. A tecnologia RFID deve substituir o código de barras, padrão mundial usado para identificar mercadorias. Há duas razões que justificam essa migração. A primeira é que, com um leitor que capta ondas a distância, evita-se o manuseio do produto. A segunda é que um chip de radiofrequência tem 96 campos para se preencher com letras, números e símbolos. No código de barras há apenas 14 disponíveis. Mais campos significam mais combinações para identificar cada produto.


O primeiro projeto para utilizar RFID em mercadorias foi da grife italiana Benetton. O chip seria aplicado a algumas roupas e conteria instruções para lavar e passar as peças. Mas pressões jurídicas levaram ao cancelamento do projeto. Temia-se que o consumidor fosse monitorado por empresas interessadas em lucrar com acesso a seus hábitos de consumo. Hoje a pressão pelo uso do RFID vem da rede de supermercados americana Wal-Mart, que limitou até janeiro o prazo para seus fornecedores de Dallas, no Texas, entregarem produtos etiquetados com RFID. Depois, será a vez dos EUA como um todo. A última fase será o carimbo das etiquetas em todos os produtos. Com mais de 3,5 mil lojas nos EUA, o Wal-Mart compra US$ 178 bilhões em mercadorias por ano. Um bom motivo para os fornecedores correrem atrás da implantação do sistema.


Pirataria - "Cerca de 70 companhias brasileiras fornecem para o Wal-Mart


nos EUA. O RFID virou pauta nacional", explica Eduardo Santos, da consultoria Accenture. A implantação foi abraçada pela concorrência, que não quer ficar para trás. "Competimos com empresas estrangeiras, precisamos estar preparados", diz Sílvio Laban, diretor de tecnologia do Grupo Pão de Açúcar. A empresa é a única brasileira com cadeira cativa no grupo de discussão sobre RFID do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). No segundo semestre, ela implantará o primeiro projeto piloto do Hemisfério Sul.


Grifes como a francesa Louis Vuitton mostram interesse pela etiqueta inteligente por seu potencial em combater a pirataria. O chip comprovaria a legitimidade do produto, evitando falsificações. Com a mesma preocupação, a butique Daslu anunciou que vai testar o sistema a partir de 2005, em sua nova loja. Conglomerados como a Procter & Gamble estudam o uso do RFID no combate a furtos, que causam prejuízo de US$ 50 bilhões ao ano. A única fábrica no Brasil adepta do chip é a Daimler-Chrysler. Seus Mercedes-Benz Classe A produzidos aqui já têm etiqueta inteligente. "O chip fica sobre a roda dianteira direita", conta Vladimir Wuerges de Souza, supervisor de tecnologia. "Ali fica armazenado um código que informa a cor do carro, o tipo de estofamento, a situação do combustível e dos fluidos."


A limitação do alcance das ondas é o principal entrave das superetiquetas e, portanto, o maior aliado contra a invasão de privacidade. O mercado de serviços


para o RFID movimenta US$ 1 bilhão. Espera-se que em 2008 ele renda US$ 3,2 bilhões, uma amostra do fôlego da tecnologia que, em breve, entrará em todas as casas. Ou, quem sabe, dentro de nós.


http://www.terra.com.br/istoe/1810/ciencia/1810_vigilancia_em_rede.htm


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