sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Reação adversa do Wikileaks: A primeira ciberguerra global começou, afirmam hackers

Julian Assange & Daniel EllsbergImage by jdlasica via FlickrReação adversa do Wikileaks: A primeira ciberguerra global começou, afirmam hackers

Enquanto Julian Assange é mantido em um confinamento de solitária na prisão Wandsworth, a comunidade de hacktivistas Anonymous toma os cyber campos de batalha.

Mark Townsend, Paul Harris em Nova York, Alex Duval Smith em Joanesburgo, Dan Sabbagh, Josh Halliday

Guardian.co.uk

Ele é um dos mais novos recrutas da Operação Payback. Em um quarto de Londres, o hacker de computador de 24 anos está preparando seu armamento para a batalha dessa semana em uma ciberguerra em evolução. Ele é um autodenominado defensor da liberdade de expressão, sua arma um laptop e seu inimigo as corporações americanas responsáveis por atacar o website Wikileaks.

Ele tinha visto os panfletos que começaram a surgir na web em meados de setembro. Em salas de bate papo, em fóruns de discussão, em caixas de correio de Manchester para Nova York e Sydney o rosto sorridente de uma máscara de Guy Fawles tinha aparecido com uma chamada às armas. Em todo o mundo um batalhão de hackers estava sendo convocado.

"Saudações amigos anônimos," era dito abaixo do cabeçalho da Operação Payback. Junto havia uma série de programas de software apelidados "nossas armas de escolha" e uma mensagem resoluta: necessárias para as pessoas mostrarem seu "ódio".

Como muitos conflitos internacionais, a guerra na internet da última semana começou por uma disputa relativamente modesta, escalando aos poucos para uma luta global.

Antes do Wikileaks, o alvo da Operação Payback era a indústria fonográfica americana, escolhida pelos processos contra os baixadores de arquivos de música. Dessa origem humilde, o troco contra a censura, anti-direitos autorais, o manifesto pela liberdade de expressão se tornaria viral, colocando na semana passada um exército amorfo de hackers online contra o governo americano e algumas das maiores corporações do mundo. 

Charles Dodd, um consultor em segurança da internet das agências do governo americano, disse: "[Os hackers] atacam das sombras e não têm medo de retaliação. Não há regras de compromisso nesse tipo emergente de guerra."

A batalha agora gira em torno das ferozes tentativas de Washington para fechar o Wikileaks e desligar o fornecimento de telegramas confidenciais do governo dos Estados Unidos. Na quinta-feira, os hacktivistas estavam repetidamente atacando aqueles que tinham visado o Wikileaks, entre eles ícones do mundo corporativo, empresas de cartões de crédito e algumas das maiores empresas online. Parecia ser o primeiro confronto entre a ordem estabelecida e a orgânica cultura popular da rede. 

Mas o confronto lançou uma projeção mais ampla sobre o poder da rede para agir como um espinho, não somente do lado de regimes autoritários, mas das democracias ocidentais, sobre nosso direito de informação e a responsabilidade de guardar segredos. Também fez profundas perguntas sobre o papel da própria rede. Um blogueiro apelidou-a de "primeira guerra mundial da informação".

No coração do conflito está o fundador do Wikileaks, a enigmática figura de Julian Assange - celebrado por alguns como o Ned Kelly (fora-da-lei australiano que ficou mistificado por ter desafiado as autoridades da Austrália colonial) da era digital pelo seu contínuo desafio de um superpoder, condenado pelos seus detratores nos Estados Unidos como uma ameaça a segurança nacional. 

Pedidos para Assange ser extraditado para os Estados Unidos para enfrentar acusações de espionagem retornarão esta semana. A contra-ofensiva da Operação Payback é provável que aumente.

Os alvos incluem a maior varejista online do mundo, a Amazon - já atacada uma vez por sua decisão de parar de hospedar o material relacionado ao Wikileaks - Washington, Scotland Yard e websites de políticos seniores dos Estados Unidos. Há uma conversa de infectar o Facebook, que na última semana removeu uma página usada por hackers pró-Wikileaks, com um vírus que se espalha de perfil para perfil causando um colapso. Ninguém parece certo de onde o febril cyber conflito levará, somente de que ele apenas começou.

Londres

Às 9:15 da última terça-feira uma figura magra, de cabelos brancos deixou o clube frontline, um estabelecimento do oeste de Londres dedicado a preservar a liberdade de expressão, e voluntariamente se rendeu a polícia. Depois de duas semanas de revelações nos jornais concernentes a países da Coreia a Nigéria, e figuras tais como Silvio Berlusconi e Príncipe Andrew, um mandado de captura de Assange tinha sido recebido pela polícia britânica. Foi de procuradores suecos ávidos por interrogá-lo sobre alegações não comprovadas de estupro.

A resposta para liberação de telegramas do Wikileaks tinha sido selvagem, particularmente de Mike Huckabee nos Estados Unidos, um ex-governador de Arkansas, que disse que aqueles que passaram segredos para Assange deveriam ser executados. Sarah Palin exigiu que Assange fosse caçado do mesmo jeito que um agente da al-qaeda seria perseguido. O procurador-geral dos Estados Unidos Eric Holder ordenou a seus funcionários começarem uma investigação criminal sobre Assange com a intenção de colocá-lo em julgamento nos Estados Unidos. Notícias de sua prisão, mesmo com acusações não comprovadas, agradaram as autoridades americanas. "Isso soa como uma boa notícia para mim”, disse Robert Gates, secretário de defesa americano. 

No entanto, mesmo com Assange preparado para aparecer em um tribunal de Londres na semana passada, uma improvável aliança de defensores tinha começado a tramar para ativar as força circulando o Wikileaks. Eles estavam começando a atacar a Amazon, que tinha sido persuadida a cortar ligações com o Wikileaks por Joe Lieberman, que chefia o comitê de segurança interna do senado americano; eles também atingiram todo sistema de nome de domínio (DNS) que quebrou o nome de domínio Wikileak.org: Mastercard, Visa e Paypal, que pararam de facilitar doações para o site, e os correios da suíça que congelaram a conta de banco do Wikileaks. 

A Operação Payback estava contra atacando ao lado de um desdobramento inexperiente, a operação vingar Assange, ambas operando sob a cobertura do Anonymous. Trata-se de uma aliança de hackers unidos por um desejo quase obsessivo de libertarianismo de informações que se congregam no site 4Chan.org.

A ciberguerra não envolveu somente símbolos de autoridade, no entanto. Por dias, de suas salas de bate papo escurecidas, os anônimos tinham estado observando um hacker chamado the Jester (bobo da corte) que parecia estar coordenando uma série de ataques em provedores de serviço de internet hospedando o Wikileaks. Eles tinham notado as credenciais pró-censura de jester, deduzindo que ele devia estar recebendo ajuda. Aumentaram as especulações de que jester era um canal misterioso trabalhando a mando das autoridades americanas. "Perguntamo-nos quem realmente estava por trás de sua agenda anti-Wikileaks," disse uma fonte.

As tentativas de tirar o Wikileaks para fora da rede rapidamente falharam. Remover seus servidores de hospedagem aumentaram a capacidade do Wikileaks ficar online. Mais de 1.300 sites "espelho" se ofereceram, incluindo o jornal francês Libération, já surgiram para guardar os telegramas confidenciais. Dentro de dias o conteúdo web do Wikileaks tinha se espalhado por tantos enclaves da internet que estava imune aos ataques de qualquer autoridade legal.

Em alguns aspectos, o Wikileaks nunca foi mais seguro ou defendido tão agressivamente. Enquanto Assange era mantido em custódia e levado para a prisão de Wandsworth, o Anonymous jurava "punir" as instituições que tinham retirado os links com o website sob pressão das autoridades dos Estados Unidos. Os websites do Visa, Mastercard e Paypal foram derrubados; assim também os do governo da Suécia. 

Um hacker do Anonymous disse: "Eu tenho divagado cada vez mais sobre a 'guerra na internet que se aproxima' por anos. Eu não estou dizendo que sei como ganhar. Mas estou dizendo que a guerra está aí."

Estocolmo

Como era de se esperar, o tempo da prisão de Assange e os aspectos do tratamento inicial das alegações sexuais estimularam o advogado Mark Stephens a denunciar os movimentos como motivados politicamente. Ele próprio um hacker de computador, Assange, 39 anos, alcançou tanto notoriedade instantânea e adulação quando o Wikileaks publicou pacotes de arquivos prejudiciais americanos relativos a guerra afegã em julho. Essa fama o levou a Estocolmo um mês depois para pronunciar uma palestra intitulada: "A verdade é a primeira vítima da guerra." foi uma traição. Um comentarista de esquerda comparou-a a "ter Mick Jagger na cidade".

Naquela noite, 14 de agosto, Assange ficou com a organizadora da conferência no flat dela em Sodermalm, uma antiga área da classe trabalhadora do centro da cidade que se tornou o equivalente em Estocolmo da Islington em Londres. Três dias depois, de acordo com seu hábito de mudar de endereço regularmente, Assange ficou em Enkoping, uma cidade a 160 km de Estocolmo, com uma outra mulher que também tinha comparecido a sua palestra sobre a importância da verdade em uma zona de guerra.

Assange partiu da Suécia em 18 de agosto e as mulheres foram juntas a polícia no dia seguinte. De acordo com Claes Borgstrom, o advogado delas, as mulheres não conheciam uma a outra antes de irem a polícia. Inicialmente, ele disse, as mulheres queriam alguns conselhos, mas o oficial de polícia concluiu que um crime tinha sido cometido e contactou o oficial do ministério público.

No tribunal na semana passada Assange foi acusado de ter feito sexo com coerção ilegal com uma mulher que estava dormindo e ter molestado sexualmente a outra fazendo sexo sem preservativo.

Na Suécia, entre a comunidade de hackers do país e ativistas políticos de inclinação esquerdista, o sincronismo é visto mais como coincidência do que conspiração.

"Os americanos são realmente muito sortudos que Assange tenha feito sexo na Suécia, uma sociedade que leva as alegações de estupro muito a sério," disse Asa Linderborg, editor de cultura do tablóide esquerdista Aftonbladet. O diretor de cinema Bosse Lindquist, que transmitirá a investigação do Wikileaks na TV sueca, e que passou muitas horas com Assange nos últimos meses, disse que a atitude de Assange com as mulheres não pareceu de nenhuma forma surpreendente.

"Se você olhar para os dois promotores públicos envolvidos na investigação das acusações de estupro, eles não são os tipos que você imaginaria se curvando a qualquer tipo de pressão do, digamos, governo sueco ou dos Estados Unidos."

Um alto funcionário, que pediu anonimato, também rejeitou as acusações de complô político contra Assange, argumentando que a cultura sueca é frequentemente mal entendida. "Os suecos não têm uma tradição iconoclasta na qual você levanta pessoas e depois demole a reputação delas. Mesmo quando as pessoas são celebridades, nós aceitamos que elas podem ter vidas privadas questionáveis. Os suecos são capazes de ver as vantagens do Wikileaks embora admitindo que Assange possa ter uma moral repugnante entre os lençois."

Linderborg, no entanto, diz que há um sentimento generalizado na Suécia de que a ascensão de Assange para a fama estimulou a libido e o ego dele.

"Muitas mulheres são atraídas pelo seu status de oprimido e do suposto perigo de passar o tempo com ele. Ele tem várias mulheres na hora que quiser. Uma pessoa me disse que ele faz sexo mais vezes do que come," Linderborg disse.

“É claro, dada a natureza da web, as acusações provocaram uma série de ataques a ambas as personagens femininas com afirmações sensacionalistas de ‘mulheres que gritam estupro’ e vadias tentando enviar um homem inocente para a prisão”. 

Operação Payback

Aqueles que monitoram as salas de bate papo usadas pela Operação Payback dizem que seus hackers puseram de lado as acusações sexuais, em vez disso concentram seus esforços em acumular mais potência para a próxima fase de resistência do Wikileaks. A arma posicionada na semana passada era ataque de "negação de serviço" no qual computadores online são controlados para bloquear os sites alvo com montanhas de requisição de dados, colocando-os fora de serviço.

Os ataques iniciais contra o banco postal suíco requereram cerca de 200 computadores, de acordo com uma fonte do Anonymous. No entanto, dentro de um dia os hackers foram capazes de recrutar milhares mais de soldados de infantaria pró-Wikileaks. Até o momento em que os websites do Visa e Mastercard foram interrompidos na última quarta-feira, perto de 3.000 computadores estavam envolvidos.

Os líderes do Anonymous começaram a distribuir ferramentas de software que permitem a qualquer pessoa com um computador se juntar a Operação Payback. Até agora mais de 9.000 usuários nos Estados Unidos tinham baixado o software; em segundo lugar está o Reino Unido com 3.000. A Alemanha, Holanda, Canadá, França, Espanha, Polônia, Rússia e Austrália seguem com mais de 1.000. O décimo primeiro país envolvido nos ataques é a Suécia, onde os grandes servidores do Wikileaks estão alojados no subsolo, com 75 downloads.

Sean-Paul Correll, um analista de cyber ameaças da Panda Security, que tem monitorado a Operação Payback desde sua concepção, disse que era impossível "traçar o perfil" daqueles envolvidos. "Eles são anônimos e estão em todo lugar," ele disse. "Eles têm trabalhos diurnos. São adultos e jovens. É apenas um monte de pessoas." Membros de profissionais de trabalhadores da classe média ao lado de pretensos anarquistas.

Aparentemente o Anonymous é uma democracia de 24 horas governada por quem quer que esteja logado; líderes surgem e desaparecem dependendo do alvo que esteja sendo atacado e dos caprichos dos membros. Correll disse: "Esse grupo não existe com algum tipo de hierarquia. Ele existe com uns poucos organizadores, mas isso pode mudar a qualquer hora. Isso dá ao grupo grande poder em que é impossível traçar e definir. Ao mesmo tempo é também uma fonte de fraqueza visto que suas ações podem ser dispersas."

Ideias estão flutuando em boletins na internet, cuja localização muda diariamente para evitar detecção. No final das contas uma proposta alcança um "ponto de inflexão" democrático e a ação será tomada. 

Um grande teste do poder de fogo da montagem da Operação Payback será a Amazon, dado o tamanho de seus servidores. A tentativa de atacar o site na última terça-feira foi hesitante, mas mesmo assim audaciosa. Agora fontes estimam que eles precisarão entre 30.000 e 40.000 computadores para prejudicar a Amazon e há um sentimento crescente entre os hacktivistas de que isso poderá acontecer. Se acontecer, a varejista poderia perder milhões de dólares durante a estação do Natal.

Até agora, no entanto, a maioria dos ataques tem sido principalmente planejados para registrar o protesto em vez de desestabilizar as empresas financeiramente, optando por seus websites públicos em vez de suas estruturas fundamentais.

Duas das mais importantes redes sociais da internet - Twitter e Facebook - estão também se tornando alvos de elementos dentro do Anonymous.

O Twitter transtornou os hackers na semana passada removendo a conta do Anonymous - que tinha 22.000 seguidores - em meio a especulações de que estava impedindo que #Wikileaks aparecesse em seus trending topics. A página do Anonymous no Facebook foi removida por violar suas condições, uma mudança que da mesma forma aborreceu um bando de hackers. Tanto Facebook quanto Twitter têm recebido elogios em anos recentes como saída para a liberdade de expressão, ainda que ambas abriguem aspirações corporativas que dependam da habilidade delas de servir como plataformas de publicidade para outras empresas.

O uso delas pelo Anonymous para direcionar pessoas no planejamento dos ataques tem, de acordo com muitos analistas, colocado ambas em uma posição difícil. O Facebook, que ainda tem sites elogiando o assassino Raoul Moat e de negadores do Holocausto, disse que retirou do ar grupos que atacam outros grupos, um movimento corajoso considerando que a página do site Wikileaks ostenta mais de 1,3 milhões de apoiadores. Qualquer evidência de que ambos os sites recuaram pela pressão americana e as luvas seriam tiradas. Da mesma forma para qualquer organização que ceder as exigências americanas sobre o Wikileaks.

Evgeny Morozov, autor de Net Delusion (Ilusão da Rede), um livro que argumenta que a internet fracassou em democratizar o mundo de forma bem sucedida, acredita que os ataques já são vistos por Washington "como atacando o próprio coração da economia global".

 Um outro alvo emergente nas semanas por vir é o próprio governo americano. Por um breve período na última terça-feira, o senate.gov - o website de todo senador americano - caiu. Cyberguerrilhas afirmam que é um possível sinal das coisas que virão.

O Futuro

A trajetória da controvérsia do Wikileaks é quase impossível de prever. Na terça-feira Assange comparecerá a sua próxima audiência de fiança (já aconteceu). Embora os apoiadores tenham conseguido 180.000 libras, é esperado que a fiança seja recusada, aguardando uma audiência completa do pedido de extradição da Suécia. Contudo seu advogado pode também revelar novas afirmações de interferência dos Estados Unidos na saga.

Independente do destino de seu fundador, o Wikileaks continuará liberando telegramas desclassificados (que não são mais secretos). No momento somente alguns dos 250.000 telegramas foram publicados.

Analistas agora descrevem a estrutura da organização com uma "empresa conectada", uma frase que foi usada no passado em relação a al-qaeda.

Por todas as tentativas dos Estados Unidos, está claro que os ataques sobre o Wikileaks fizeram um impacto mínimo e é improvável afetar a disponibilidade das informações que o Wikileaks já vazou.

Enquanto isso, o senador Lieberman indicou que o New York Times e outra organizações de notícias que usam os telegramas do Wikileaks podem ser investigadas por quebrar as leis de espionagem dos Estados Unidos. Atualmente, quem vai ganhar a "primeira guerra mundial da informação" permanece incerto.

Morozov disse: "Haverá muito mais pessoas da CIA e da NSA (Agência de Segurança Nacional) circulando ao redor deles."

Mas o conflito parece cada vez mais provável de atingir os lucros reais das corporações americanas. Hoje o jovem londrino de 24 anos está preparando suas armas para a batalha que se aproxima.

Fonte: http://www.guardian.co.uk

  
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