Na semana passada, o secretário de Defesa norte-americano Chuck Hagel
anunciou a
'Iniciativa de Inovação de Defesa'- um plano de varredura para
identificar e desenvolver avanços incisivos de tecnologia de ponta "
ao longo dos próximos três a cinco anos e além" para manter a "
superioridade tecnológica militar"
global dos EUA. As áreas a serem abrangidas pelo programa do DoD
incluem robótica, sistemas autônomos, miniaturização, Big Data
(processamento de dados em massa) e fabricação avançada, incluindo a
impressão 3D.
Mas o quão longe no buraco do coelho a iniciativa de Hagel poderia ir -
seja impulsionada pelo desespero, fantasia ou arrogância - é revelado
por um negligenciado estudo financiado pelo Pentágono, publicado
discretamente em meados de setembro pela Universidade Nacional de Defesa
(NDU) e o Center for Technology and National Security Policy, em
Washington DC.
A
página 72 do documento traz uma visão detalhada sobre as implicações de longo alcance do plano do Pentágono para monopolizar os iminentes "
avanços transformacionais" na biotecnologia, robótica e
inteligência artificial, tecnologia da informação, nanotecnologia e energia.
A iniciativa de Hagel está sendo supervisionada pelo vice-secretário de
defesa Robert O. Work, o principal autor de um relatório lançado em
janeiro passado pelo Center for a New American Security (CNAS), "
20YY: Preparação para a Guerra na Idade Robótica".
O relatório do trabalho também é fortemente citado no novo estudo
publicado pela NDU, a instituição de ensino superior fundada pelo
Pentágono que treina os oficiais militares americanos e desenvolve
estratégia de segurança nacional do governo e políticas de defesa.
O estudo da NDU adverte que embora a aceleração da mudança tecnológica vá "
enfraquecer
o mundo economicamente, socialmente, politicamente e militarmente, ela
poderia também aumentar a desigualdade da riqueza e estresse social", e argumenta que o Pentágono deve tomar medidas drásticas para evitar a potencial redução do poder militar americano: "
Para o DoD se manter como a força militar proeminente do
mundo, deve redefinir a sua cultura e os processos organizacionais para
tornar-se mais interligado, ágil, e baseado no conhecimento".
Os autores do documento da NDU, Dr James Kadtke e Dr Linton Wells, são
experientes conselheiros do Pentágono de longo prazo, ambos afiliados ao
centro de tecnologia da NDU, o qual produz pesquisa de "
apoio ao Gabinete do Secretário da Defesa, Serviços, e Congresso."
Kadtke era anteriormente um oficial sênior da National Nanotechnology
Coordinating Office da Casa Branca, enquanto Wells - que serviu sob Paul
Wolfowitz como diretor chefe de informação do DoD e vice-assistente do
secretário de defesa - era até junho deste ano Presidente das Forças de
Transformação da NDU.
O Big Brother da Big Data
Uma área chave enfatizada pelo estudo de Wells e Kadtke está melhorando a capacidade da comunidade de inteligência dos
EUA de analisar automaticamente vastos conjuntos de dados sem a necessidade de intervenção humana.
Salientando que as "
informações pessoais sensíveis" podem agora ser facilmente extraídas de fontes online e mídias sociais, eles pedem por políticas de "
informações
identificáveis pessoalmente (PII) para determinar a capacidade do
Departamento de fazer uso de informações de mídia social em
contingências domésticas" - em outras palavras, para determinar em
que condições o Pentágono pode usar as informações pessoais sobre os
cidadãos americanos obtidas através de dados de mineração do
Facebook,
Twitter, LinkedIn, Flickr e assim por diante.
O estudo deles argumenta que o DoD pode alavancar "
a coleta de dados em larga escala" para a medicina e sociedade, por meio de "
monitoramento de indivíduos e populações que utilizam sensores, dispositivos vestíveis e a Internet das coisas [IoT]", que juntos "
irão fornecer detecção e análise preditiva". O Pentágono pode construir a capacidade para isso "
em parceria com grandes fornecedores do setor privado, onde as soluções mais inovadoras estão atualmente em desenvolvimento".
Em particular, o Pentágono deve melhorar a sua capacidade para analisar
conjuntos de dados de forma rápida, através do investimento em "
técnicas
automatizadas de análise, análise de texto, e técnicas de interface do
usuário para reduzir o tempo de ciclo e necessidades de mão de obra
exigida para a análise de grandes conjuntos de dados".
Kadtke e Wells querem que os militares dos EUA tirem proveito da
crescente interconexão das pessoas e dispositivos através da nova
"Internet das Coisas", através do uso de "
sistemas embutidos" em "
automóveis, fábricas, infra-estrutura, aparelhos e casas, animais de estimação, e potencialmente, dentro dos seres humanos". Devido ao advento da
"nuvem robótica... a linha entre a robótica convencional e os
dispositivos inteligentes diários vai se tornar cada vez mais ténue".
A nuvem robótica, um termo cunhado pelo novo chefe de robótica do
Google,
James Kuffner, permite que os robôs ampliem as suas capacidades através
da conexão pela internet para compartilhar recursos online e colaborar
com outras máquinas. Em 2030, quase todos os aspectos da sociedade
global poderiam se tornar, em suas palavras, "
instrumentada, ligadas
em rede, e potencialmente disponíveis para o controle através da
Internet, em uma hierarquia de sistemas ciber-físicos".
No entanto, a aplicação militar mais direta de tais tecnologias, o
estudo do Pentágono conclui que, estará no
"Command-Control-Communications, Computers and
Intelligence-Surveillance-Reconnaissance (C4ISR)" (que pode ser
traduzido como "Comando-Controle-Comunicações,
Inteligência-Vigilância-Reconhecimento Computadorizado") - um campo
liderado por "organizações de nível mundial, como a Agência Nacional de
Segurança (
NSA). "
Hábil eliminador de bots na nuvem
Dentro deste contexto da Big Data e nuvem robótica, Kadtke e Wells se
entusiasmam ao falar que conforme os sistemas robóticos não tripulados
ficam mais inteligentes, a fabricação barata de "
exércitos de assassinos de robôs que podem guerrear sozinhos" será em breve uma realidade. Os robôs também poderiam tornar-se incorporados na vida civil para executar a "
vigilância, monitoramento de infra-estrutura, telepresença da polícia e aplicações de segurança nacional".
O principal desafio para tal institucionalização robótica virá de uma
"repercussão política" para robôs serem capazes de determinar por si
mesmos quando matar.
Para contrariar acusações públicas, eles defendem que o Pentágono deve
ser "altamente pró-ativo" no sentido de garantir que "não seja percebida
como a criação de sistemas de armas sem "humanos no meio". Pode ser que
DoD deva publicamente auto-limitar sua doutrina operacional no uso de
tais sistemas para diminuir a reação pública ou internacional para o seu
desenvolvimento de sistemas autônomos. "
Apesar deste ação de relações públicas, eles recomendam que DoD ainda
deve "permanecer à frente da curva", desenvolvendo "doutrina operacional
para as forças composta significativamente ou até inteiramente de
elementos não-tripulados ou autônomos."
O argumento consiste em "
suplementar ou substituir os operadores humanos" tanto quanto possível, especialmente para missões que são "
perigosas", "
impraticáveis" ou "
impossíveis"
para os seres humanos (como, talvez, todas as guerras?). Em apenas
cinco anos, o estudo relata que, as pesquisas do Pentágono para melhorar
a inteligência de robôs vai ter "
avanços significativos".
Skynet na década de 2020?
Talvez a dimensão mais perturbadora entre as percepções do estudo da NDU
seja a perspectiva de que, na próxima década, a pesquisa da
inteligência artificial (
IA) poderia gerar uma "IA forte" - ou, pelo menos, uma forma de "IA fraca" que aproxima algumas características da anterior.
A IA forte deve ser capaz de simular uma ampla gama de cognição humana, e
inclui características como a consciência, sensibilidade, sabedoria ou
auto-consciência. Muitos acreditam agora que, Kadtke e Wells mencionam
que a "
IA forte pode ser alcançada em algum momento da década de 2020".
Eles relatam que uma série de avanços tecnológicos apoiam "esse otimismo", especialmente que os "
processadores
de computador provavelmente irão atingir o poder computacional do
cérebro humano em algum momento da década de 2020" -
a Intel visa atingir este marco em 2018. Outros avanços relevantes em desenvolvimento incluem "
simulações
cerebrais completas, computadores neuro-sinápticos e sistemas de
representação de conhecimento geral, tais como o IBM Watson".
Enquanto os custos da fabricação robótica e de computação em nuvem
despencam, o estudo da NDU diz que os avanços da IA poderiam até
permitir a automação de funções militares de alto nível como "
solução de problemas", "
desenvolvimento de estratégia" ou "
planejamento operacional".
"A longo prazo, soldados totalmente robóticos podem ser desenvolvidos e implementados, particularmente por países mais ricos".
"
A longo prazo, soldados totalmente robóticos podem ser desenvolvidos
e implementados, especialmente por parte dos países mais ricos", diz o estudo (felizmente, planos de acrescentar "tecido vivo" exterior não são mencionados).
Mas se as
ressalvas do bilionário empresário da tecnologia,
Ellon Musk significam alguma coisa, a arrogância do Pentágono está
profundamente fora de propósito. Musk, um dos primeiros investidores na
empresa de IA
DeepMind, agora propriedade do Google, alertou sobre "algo perigoso"
para acontecer em cinco anos, devido ao crescimento "perto do exponencial" da IA da empresa - e que
alguns especialistas de IA concordam.
Como se isso não fosse preocupante o suficiente, Kadtke e Wells
continuam a traçar uma evolução significativa em uma ampla gama de
outras tecnologias significativas. Eles apontam para o desenvolvimento
de Armas de Energia Direta (DEW) que projetam radiação eletromagnética
como a luz a laser, e que já estão sendo implantadas em forma de teste.
Em Agosto deste ano, a USS Ponce desenvolveu um canhão com um laser operacional -
um assunto que só foi relatado nos últimos dias. Os autores da NDU preveem que as DEWs, "
serão uma tecnologia militar muito perturbadora" devido a "
características únicas, como a de tempo de voo quase zero, alta precisão, e um paiol efetivamente infinito". O Pentágono planeja implantar amplamente as DEWs a bordo de navios em poucos anos.
O Pentágono também quer desenvolver tecnologias que poderiam 'melhorar' o
físico, o psicológico e a cognição humana. O estudo da NDU cataloga uma
série de domínios relevantes, incluindo "
medicina (genética) personalizada, tecidos e regeneração de órgãos via células-tronco, implantes como chips de computadores
e dispositivos de comunicação, próteses robóticas, interfaces
cérebro-máquina diretas, e comunicações cérebro-cérebro potencialmente
diretas".
Outra área em avanço de desenvolvimento inovador
está a biologia sintética (Synbio). Os cientistas recentemente criaram células com DNA compostas de aminoácidos não-naturais, abrindo a porta para criar "
formas de vida projetadas" inteiramente novas, o relatório do Pentágono se entusiasma, e os projetariam com "
propriedades especializadas e exóticas".
Kadtke e Wells salientaram uma recente avaliação do Pentágono da pesquisa Synbio atual sugerindo que, "
uma grande promessa para a engenharia de organismos sintéticos úteis para uma série de 'aplicações relevantes de defesa'".
Já é possível substituir órgãos por dispositivos electro-mecânicos
artificiais para uma ampla gama de partes do corpo. Citando uma pesquisa
em andamento do exército americano em "
cognição e neuro-ergonomia", Kadtke e Wells previram: "
Pulmões artificiais
confiáveis, implantes de olhos e ouvidos e músculos, provavelmente
todos estarão comercialmente disponíveis dentro de 5 a 10 anos".
Ainda mais radicalmente, eles observam a possibilidade emergente de usar
células-tronco para regenerar cada parte do corpo humano.
Misturar tais desenvolvimentos com a robótica tem outras implicações
radicais. Os autores destacam demonstrações de sucesso de implantação de
memória de silício e processadores dentro do cérebro, bem como "
dispositivos controladores de pensamento". A longo prazo, esses avanços poderiam fazer os "dispositivos vestíveis" como o
Google Glass, se parecerem como fósseis antigos, substituídos por "
sistemas homem-máquina distribuídos que
utilizam interfaces cérebro-máquina e processadores analógicos
fisiomiméticos, bem como sistemas cibernéticos híbridos, os quais
poderiam fornecer exploração de dados e análise humana ininterrupta e aprimorada artificialmente".
Todos nós somos suspeitos de terrorismo
Tomados em conjunto, as "
revoluções científicas" catalogadas pelo
relatório da NDU, se militarizadas, concederiam ao Departamento de
Defesa (DoD) "novas capacidades perturbadoras" de uma qualidade quase
totalitária.
Como me foi dito pelo ex-executivo sênior da NSA,
Thomas Drake, o denunciante que inspirou
Edward Snowden,
a investigação em curso financiada pelo Pentágono sobre mineração de
dados alimenta diretamente o ajuste-fino dos algoritmos utilizados pela
comunidade de inteligência dos EUA para identificar não apenas
"terroristas suspeitos", mas também alvos para ataques de
drones das listas de morte da
CIA.
Quase metade das pessoas na lista de observação de terrorismo do governo dos EUA dos "terroristas conhecidos ou suspeitos" têm "nenhuma afiliação a grupos terroristas reconhecidos",
e mais da metade das vítimas de ataques de drones da CIA ao longo de um único ano foram "
avaliados", como "
extremistas afegãos, paquistaneses e desconhecidos" - entre outros estão os meramente "
suspeitos, associados, ou que provavelmente", pertenciam a grupos militantes não identificados.
Inúmeros estudos mostram que um número substancial de vítimas de ataque de drones são civis - e uma administração secreta de Obama
liberou um memorando neste verão sob alei de Liberdade de Informação que revela que o programa de drones autoriza a matança de civis, como um dano colateral inevitável.
Na verdade, suposições erradas nos sistemas de classificação do Pentágono para avaliação da ameaça significa que até mesmo os "
ativistas políticos não violentos"
pode ser confundidos com potenciais "extremistas", que "
apoiam a violência política" e, portanto, representam uma ameaça para os interesses dos EUA.
Está longe de ser evidente que a visão
Skynet
do Pentágono de guerra do futuro vai realmente chegar a ser
concretizada. Que a aspiração está sendo perseguida tão fervorosamente
em nome da "segurança nacional", na era da não menos austeridade,
certamente levanta questões sobre se a força militar mais poderosa do
mundo não está perdendo tanto a sua vantagem, como está perdendo o
enredo.