domingo, 29 de novembro de 2009

Uma estratégia imperial para a Nova Ordem Mundial: As origens da Terceira Guerra Mundial.

Bush & CheneyImage by Jaume d'Urgell via Flickr

Uma estratégia imperial para a Nova Ordem Mundial: As Origens da Terceira Guerra Mundial.

Parte 1

Por Andrew Gavin Marshall


Introdução

Em face do total colapso econômico global, as perspectivas de uma maciça guerra internacional estão crescendo. Historicamente, os períodos de declínio imperial e crise econômica são marcados pelo crescimento da violência internacional e de guerra. O declínio dos grandes impérios europeus foi marcado pela primeira e segunda guerra mundial, com a Grande Depressão tomando o lugar no período intermediário.

Atualmente, o mundo está testemunhando o declínio do império americano, ele mesmo um produto nascido da segunda guerra mundial. Como a hegemonia imperial do pós guerra, a América administrou o sistema monetário internacional e reinou como uma defensora e árbitro da política econômica global.

Para gerenciar a política econômica global, Os Estados Unidos criaram a maior e mais poderosa força militar da história mundial. O controle constante sobre a economia global requer uma presença militar constante e ação.

Agora que tanto o império americano como a política econômica global estão em declínio e em colapso, a perspectiva de um fim violento para a era imperial americana está aumentando drasticamente.

Este ensaio está dividido em três partes. A primeira parte cobre a estratégia geopolítica EUA-OTAN desde o fim da guerra fria, até o começo da Nova Ordem Mundial, resumindo a estratégia imperial do Ocidente que levou a guerra na Yugoslávia e a "Guerra ao Terror". A parte dois analisa a natureza das "Revoluções Suaves" ou "Revoluções Coloridas" na estratégia imperial dos Estados Unidos, focalizando no estabelecimento da hegemonia sobre a Europa Oriental e a Ásia Central. A parte três analisa a natureza da estratégia imperial para construir a Nova Ordem Mundial, focalizando no crescimento dos conflitos no Afeganistão, Paquistão, Irã, América Latina, Europa Oriental e África; e o potencial político que esses conflitos têm para começar uma nova Guerra Mundial com a China e a Rússia.

Definindo uma Nova Estratégia Imperial

Em 1991, com o colapso da União Soviética, a política externa USA-OTAN teve que reimaginar seu papel no mundo. A guerra fria serviu como um meio de justificar a expansão imperialista dos Estados Unidos através do globo com o objetivo de "contenção" da ameaça Soviética. A própria OTAN foi criada e existiu por um só propósito de forjar uma aliança antisoviética. Com o fim da URSS, a OTAN não tinha mais razão para existir, e os Estados Unidos tinham de encontrar um novo propósito para sua estratégia imperialista no mundo.

Em 1992, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, sob a liderança do Secretário de Defesa Dick Cheney (depois vice-presidente de George Bush Jr.), tinha a política do pentágono sujeita ao Secretário de Defesa, Paul Wolfowitz (depois representante do Secretário de Defesa no governo de George Bush Jr. e presidente do Banco Mundial), escreveu um documento de defesa para guiar a política externa americana na era pós- guerra fria, comumente referida como "Nova Ordem Mundial."

O documento de direção do planejamento de defesa foi vazado em 1992, e revelava que, "em uma ampla nova declaração política que está em sua fase de rascunho final, o Departamento de Defesa afirma que a missão política e militar da América na era pós- guerra será assegurar que não seja permitido que nenhuma superpotência rival surja na Europa Ocidental, Ásia ou nos territórios da extinta União Soviética," e que, "o documento confidencial torna desnecessária no caso de um mundo dominado por uma superpotência cuja posição pode ser perpetuada por um comportamento construtivo e suficiente poderio militar para deter qualquer nação ou grupo de nações de desafiar a primazia americana."

Além do mais, "o novo rascunho delineia um mundo no qual há apenas uma potência militar dominante cujos líderes 'devem manter os mecanismos de dissuadir potenciais competidores de até aspirar a um papel regional ou global mais amplo'." Entre os desafios necessários da supremacia americana, o documento "postulava guerras regionais contra a o Iraque e a Coreia do Norte,” e identificava China e Rússia como suas maiores ameaças. Mais adiante "sugere que os Estados Unidos poderiam também considerar estender as nações da Europa Oriental e Central compromisso de segurança similar aqueles concedidos a Arábia Saudita, Kuwait e outros estados árabes ao longo do golfo pérsico.

OTAN e Yugoslávia

As guerras na Yugoslávia durante os anos 90 serviram como justificação para a continuada existência da OTAN no mundo, e a expansão os interesses imperiais americanos na Europa Oriental.

O Banco Mundial e o FMI armaram o palco para a desestabilização da Yugoslávia. Depois que o ditador da Yugoslávia por longo tempo, Josip Tito, morreu em 1980, uma crise de liderança se desenvolveu. Em 1982, os funcionários da política externa americanos organizaram um conjunto de empréstimos do FMI e do Banco Mundial, sob as recentemente criadas SAPs (Programas de Ajustamento Estrutural), para lidar com a crise de $20 bilhões de débitos com os Estados Unidos. O efeito dos empréstimos, sob as SAPs, foi que eles "causaram uma devastação econômica e política...A crise econômica ameaçava a estabilidade política...Também ameaçava agravar a temperatura das tensões étnicas."

Em 1989, Slobodan Milosevic se tornou presidente da Sérvia, a maior e mais poderosa de todas as repúblicas yugoslavas. Também em 1989, o primeiro ministro da Yugoslávia viajou para os Estados Unidos para encontrar o presidente George H.W. Bush com o objetivo de negociar outro pacote de ajuda financeira. Em 1990, o programa do Banco Mundial/FMI começou, e as despesas do estado yugoslavo foram direcionadas para o repagamento do débito. Como resultado, os programas sociais foram desmantelados, a moeda desvalorizada, os salários congelados, e os preços subiram. As "reformas acenderam as tendências secessionistas que se alimentaram dos fatores econômicos bem como das divisões étnicas, virtualmente assegurando a secessão de fato da república," levando a secessão da Croácia e da Eslovênia em 1991.

Em 1990, a comunidade de inteligência dos Estados Unidos liberou uma Avaliação da Inteligência Nacional (NIE, em inglês), prevendo que a Yugoslávia se dividiria, irromperia em uma guerra civil, e o relatório então colocava a culpa no presidente Milosevic pela desestabilização vindoura.

Em 1991, o conflito irrompeu entre Yugoslávia e Croácia, quando ela também declarou independência. Um cessar fogo foi alcançado em 1992. Porém, os croatas continuaram com pequenas ofensivas militares até 1995, participando do mesmo modo na guerra da Bósnia. Em 1995, a operação tempestade foi empreendida pela Croácia para tentar retomar a região de Krajina. Um general croata foi recentemente levado a julgamento em Haia por crimes de guerra durante a batalha, que foi decisiva para tirar os sérvios da Croácia e "consolidar a independência croata." Os Estados Unidos apoiaram a operação e a CIA providenciou ativamente inteligência para as forças croatas, levando a evacuação de entre 150.000 e 200.000 sérvios, principalmente através de meios de assassinato, saques, incêndio de vilas e limpeza étnica. O exército croata foi treinado por assessores dos Estados Unidos, e o general em julgamento foi até mesmo apoiado pessoalmente pela CIA.

A administração Clinton deu a "luz verde" para o Irã armar os muçulmanos bósnios e "de 1992 a janeiro de 1996, houve um influxo de armas e assessores iranianos na Bósnia." Além do mais, "Irã e outros estados muçulmanos, ajudaram a trazer os guerreiros mujahedins para a Bósnia para lutar com os muçulmanos contra os sérvios, 'guerreiros sagrados do Afeganistão, Chechênia, Iêmen e Algéria, alguns dos quais tinham ligações suspeitas com os campos de treinamento de Osama Bin Laden no Afeganistão."

Foi a "intervenção ocidental nos Bálcãs que exarceberam as tensões e ajudaram a prolongar as hostilidades. Pelo reconhecimento das alegações das repúblicas e grupos separatistas em 1990/1991, as elites ocidentais - americanas, britânicas, francesas e alemãs - minaram as estruturas do governo da Yugoslávia, aumentaram a insegurança, inflamaram conflitos e elevaram as tensões étnicas. E pelo oferecimento de apoio logístico a vários lados durante a guerra, a intervenção ocidental sustentou o conflito até meados dos anos 1990. A escolha por Clinton dos muçulmanos bósnios como a causa a promover na cena internacional, e a exigência de sua administração de que o embargo de armas pela ONU fosse levantado para que os muçulmanos e os croatas pudessem se armar contra os sérvios deveria ser vistos sob esta luz."

Durante a guerra na Bósnia, havia "um grande canal secreto para o contrabando de armas apesar da Croácia. Isso foi arranjado pelas agências clandestinas dos Estados Unidos, Turquia e Irã, juntos com uma série de grupos islâmicos radicais, incluindo os mujahedins afegãos e o grupo pró-iraniano Hezbolah." Além do mais, "os serviços secretos da Ucrânia, Grécia e Israel estavam ocupados armando os sérvios bósnios." A agência de inteligência alemã, a BND, também realizava carregamentos de armas para os muçulmanos bósnios e para a Croácia para lutarem contra os sérvios.

Os Estados Unidos tinham influenciado a guerra na região de variados modos. Como o The Observer relatou em 1995, a maior faceta de seu envolvimento foi através da "Recursos Militares Profissionais Inc. (MPRI), uma companhia privada baseada na Virgínia de generais aposentados e oficiais da inteligência. O embaixador americano em Zagreb admite que a MPRI está treinando os croatas, sob licença do governo americano." Também, os holandeses "estavam convencidos de que as forças especiais dos Estados Unidos estavam envolvidas no treinamento do exército bósnio e do exército bósnio croata (HVO)."

Lá atrás em 1988, o líder da Croácia se reuniu com o chanceler alemão Helmut Kohl para criar "uma política conjunta para separar a Yugoslávia," e trazer a Eslovênia e a Croácia para dentro da "zona econômica alemã". Assim, oficiais do exército dos Estados Unidos foram despachados para a Croácia, Bósnia, Albânia, e Macedônia como "conselheiros" e trouxeram as forças especiais dos Estados Unidos para ajudar. Durante os nove meses de cessar fogo na guerra da Bósnia-Herzegovina, seis generais americanos se reuniram com os líderes do exército bósnio para planejar a ofensiva bósnia que rompeu o cessar fogo.

Em 1996, a máfia albanesa, em colaboração com o Exército de Libertação de Kosovo (KLA), uma organização guerrilheira militante, tomou o controle sobre as enormes rotas de tráfico de heroína dos Bálcãs. O KLA estava ligado aos antigos lutadores mujahedins afegãos no Afeganistão, incluindo Osama Bin Laden.

Em 1997, o KLA começou a lutar contra as forças sérvias, e em 1998, o Departamento de Estado dos Estados Unidos removeram o KLA da sua lista de organizações terroristas. Antes e depois de 1988, o KLA esteve recebendo armas, treinamento e apoio dos Estados Unidos e OTAN, e a Secretária de Estado de Clinton, Madeline Albright, tinha um relacionamento político estreito com o líder do KLA Hashim Thaci.

Ambas a CIA e a inteligência alemã, o BND, apoiavam os terroristas do KLA na Yugoslávia antes e depois do bombardeio da Yugoslávia pela OTAN em 1999. O BND tinha contato com o KLA desde o início dos anos 90, o mesmo período que o KLA estava estabelecendo seus contatos com a Al-Qaeda. Os membros do KLA eram treinados por Osama Bin Laden em campos de treinamento no Afeganistão. Mesmo os Estados Unidos afirmavam que muito da violência que ocorreu veio de membros do KLA, "especialmente daqueles aliados com Hashim Thaci."

O bombardeio de Kosovo em março de 1999 pela OTAN foi justificado pela pretensão de pôr um fim na opressão sérvia dos albaneses de Kosovo, que foi chamada de genocídio. A administração Clinton fez queixas de que pelo menos 100.000 albaneses de Kosovo estavam desaparecidos e "poderiam ter sido assassinados" pelos sérvios. Bill Clinton pessoalmente comparou os eventos em Kosovo ao Holocausto. O Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmava que temia-se que cerca de 500.000 albaneses estavam mortos. Finalmente, a estimativa oficial foi reduzida para 10.000, contudo, depois de exaustivas investigações, foi revelado que a morte de menos de 2.500 albaneses poderia ser atribuída aos sérvios. Na campanha de bombardeio da OTAN, entre 400 e 1.500 civis sérvios foram assassinados, e a OTAN cometeu crimes de guerra, incluindo o bombardeio de uma estação de TV sérvia e de um hospital.

Em 2000, o Departamento de Estado dos Estados Unidos, em cooperação com o Instituto Americano de Empreendimentos, AEI, realizou uma conferência sobre integração Euro-Atlântico na Eslováquia. Entre os participantes estavam muitos chefes de Estado, funcionários de assuntos exteriores e embaixadores de vários Estados europeus bem como funcionários da ONU e da OTAN. Uma carta da correspondência entre um político alemão presente na reunião e o chanceler alemão, revelou a verdadeira natureza da campanha da OTAN em Kosovo. A conferência exigia uma rápida declaração de independência para Kosovo, e que a guerra na Yugoslávia era travada com o objetivo de aumentar a OTAN, a Sérvia era para ser excluída permanentemente do desenvolvimento europeu para justificar a presença militar dos Estados Unidos na região, e a expansão no final das contas foi planejada para conter a Rússia.

De grande significado foi que, "a guerra criou uma razão de ser para a continuada existência da OTAN em um mundo pós guerra, enquanto ela tentava desesperadamente justificar a existência e desejo por expansão." Além do mais, "os russos presumiram que a OTAN se dissolveria no fim da guerra fria. Em vez disso, não somente a OTAN se expandiu, ela foi a guerra em uma disputa interna em um país europeu oriental eslavo." Isso foi visto como uma grande ameaça. Assim, "muito das tensas relações entre os Estados Unidos e a Rússia na década passada podem ser traçadas até a guerra da Yugoslávia em 1999.

A Guerra ao Terror e o Projeto para um Novo Século Americano (PNAC).

Quando Bill Clinton se tornou presidente, os falcões neoconservadores da administração George H.W. Bush formaram um think thank chamado Projeto para um Novo Século Americano, ou PNAC. Em 2000 eles publicaram um relatório chamado, Reconstruindo as Defesas Americanas: Estratégia, Forças, e Recursos para um Novo Século. No documento de orientação para construção de uma política de defesa, eles afirmam que, "os Estados Unidos devem reter forças suficientemente capazes para rapidamente ficar de prontidão e ganhar múltiplas e simultâneas guerras em larga escala." Além do mais, há "necessidade de reter suficientes forças de combate para lutar e vencer, em múltiplos, quase simultâneos, grandes teatros de guerra," e que "o Pentágono precisa começar a calcular a força necessária para proteger, independemente, os interesses dos Estados Unidos na Europa, Leste da Ásia e o Golfo o tempo todo.

Interessantemente, o documento afirmava que, "os Estados Unidos têm por décadas procurado desempenhar um papel mais permanente na segurança da região do Golfo. Enquanto o conflito não solucionado com o Iraque proporciona a justificação imediata, a necessidade para uma substancial presença da força americana no Golfo transcende a questão do regime de Saddam Hussein." Contudo, em defesa de um aumento maciço dos gastos de defesa e da expansão do império americano pelo globo, incluindo a poderosa destruição de múltiplos países através de grandes teatros de guerra, o relatório afirmava que, "além disso, o processo de transformação, mesmo se trouxer mudanças revolucionárias, é provável que seja longo, ausente algum evento catastrófico e catalisador - como um novo Pearl Harbor." Esse evento veio um ano depois com os eventos de 11/9. Muitos dos autores do relatório e membros do Projeto para um Novo Século Americano se tornaram funcionários na administração Bush, e estavam convenientemente no lugar para executar seu "Projeto" depois que eles tiveram seu "Novo Pearl Harbor."

Os planos para a guerra estavam "já sob desenvolvimento pelos think thanks da extrema direita nos anos 90, organizações nas quais os guerreiros da guerra fria do círculo interno dos serviços secretos, das igrejas evangélicas, das corporações de armas e companhias de petróleo forjaram planos surpreendentes para a Nova Ordem Mundial". Para fazer isso, "os Estados Unidos precisariam usar todos os meios - diplomático econômico e militar, até guerras de agressão - para o controle de longo prazo dos recursos do planeta e a habilidade de manter qualquer possível rival fraco."

Entre as pessoas envolvidas no PNAC e nos planos para o império, "Dick Cheney - vice presidente, Lewis Libby - chefe de pessoal de Cheney, Donald Rumsfeld - Ministro da Defesa, Paul Wolfowitz, adjunto de Rumsfeld, Peter Rodman - encarregado de "questões de segurança global", John Bolton - Secretário de Estado para controle de armas, Richard Armitage - adjunto do ministro do exterior, Richard Perle - ex-adjunto do Ministro da Defesa sob Reagan, e agora diretor do Conselho de Política de Defesa, William Kristol - diretor do PNAC e conselheiro de Bush, e conhecido com o cérebro do presidente, Zalmay Khalilzad," que se tornou embaixador tanto no Afeganistão como no Iraque seguindo as mudanças de regimes nestes países.

O grande tabuleiro de xadrez de Brzezinski

O estrategista arqui-falção, Zbigniew Brzezinski, co-fundador da Comissão Trilateral com David Rockefeller, ex-Conselheiro de Segurança Nacional e arquiteto chave da política externa na administração de Jimmy Carter, também escreveu um livro sobre geoestratégia americana. Brzezinski é também membro do Conselho de Relações Exteriores (CFR) e do Grupo Bilderberg, e também tem sido membro do comitê da Anistia Internacional, do Conselho do Atlântico e da Fundação Nacional para a Democracia. Atualmente, é administrador e conselheiro no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um proeminente think thank de política dos Estados Unidos.

Em seu livro de 1997, o Grande Tabuleiro de Xadrez, Brzezinski delineou uma estratégia para a América no mundo. Ele escreveu, "Para a América, o principal prêmio geopolítico é a Eurásia. Por meio milênio, os assuntos do mundo foram dominados pelas potências eurasianas e povos que lutavam uns com os outros pelo domínio regional e para alcançar o poder global." Mais, "como a América 'controla' a Eurásia é crítico. A Eurásia é o maior continente do globo e é geopoliticamente axial. Um poder que dominar a Eurásia controlará duas das três regiões mais avançadas e economicamente produtivas. Uma mera olhada no mapa também sugere que o controle sobre a Eurásia quase automaticamente obrigaria a subordinação africana."

Ele continuou delineando uma estratégia para o império americano, afirmando que, "é imperativo que nenhum desafiante eurasiano surja capaz de dominar a Eurásia e assim de também desafiar a América. A formulação de uma geoestratégia eurasiana abrangente e integrada é, portanto, o propósito deste livro." Ele explicou que, "Dois passos básicos são assim requeridos: Primeiro, identificar os estados eurasianos geoestrategicamente dinâmicos que tenham o poder de causar uma mudança potencialmente importante na distribuição internacional de poder e decifrar as metas externas centrais de suas respectivas elites políticas e prováveis consequências de tentar conquistá-las: (e) segundo, formular políticas dos Estados Unidos específicas para contrabalançar, cooptar, e/ou controlar os supracitados."

O que isto significa é que é de fundamental importância primeiro identificar estados que possam potencialmente serem o pivô sobre o qual o equilíbrio do poder na região sai da esfera de influência dos Estados Unidos; e em segundo lugar, "contrabalançar, cooptar, e/ou controlar" tais estados e circunstâncias. Um exemplo disso seria o Irã; sendo um dos maiores produtores de petróleo, e em uma posição estrategicamente significativa no eixo da Europa, Ásia e Oriente Médio. O Irã poderia possuir o potencial de alterar o equilíbrio de poder na Eurásia se ele se aliasse proximamente com a Rússia e a China, ou ambos - dando a essas nações um grande fornecimento de petróleo bem como uma esfera de influência no Golfo, dessa forma desafiando a hegemonia americana na região.

Brzezinski retirou toda sutileza de suas inclinações imperialistas, e escreveu, "Pondo em uma terminologia que foi dita anteriormente na era mais brutal dos impérios antigos, os três grandes imperativos de uma geoestratégia imperial são evitar conspiração e manter os vassalos dependentes de segurança, manter os contribuintes dóceis e protegidos, e evitar os bárbaros de se juntarem."

Brzezinski se referiu as repúblicas da Ásia Central como os "Bálcãs Eurasianos", escrevendo que, "Além do mais, elas (as repúblicas da Ásia Central) são de importância do ponto de vista da segurança e das ambições históricas para pelo menos três dos seus mais imediatos e mais poderosos vizinhos, a saber, Rússia, Turquia e Irã, com a China também sinalizando um crescente interesse político na região. Mas os Bálcãs Eurasianos são infinitamente mais importantes como um potencial prêmio econômico: uma enorme concentração de gás natural e reservas de petróleo estão localizadas na região, em adição a importantes minerais, incluindo ouro." Ele mais adiante escreveu que,” Segue que o interesse primário da América é ajudar a assegurar que nenhuma potência sozinha venha a controlar esse espaço geopolítico e que a comunidade global tenha acesso financeiro e econômico irrestrito a isso." Este é um claro exemplo do papel da América como uma locomotiva do império; com a política externa imperial desenhada para manter as posições estratégicas dos Estados Unidos, mas primariamente e "infinitamente mais importante", é assegurar um "prêmio econômico" para "a comunidade global." Em outras palavras, os Estados Unidos são uma hegemonia imperial trabalhando para os interesses financeiros internacionais.

Brzezinski também advertiu que, "Os Estados Unidos podem ter de determinar como lidar com coalizões regionais que procuram tirar a América da Eurásia, dessa forma ameaçando o status da América como potência global," e ele, "põe como bonificação a manobra e manipulação para evitar a emergência de uma coalizão hostil que possa eventualmente procurar desafiar a primazia americana." Assim, "A tarefa mais imediata é ter certeza de que nenhum estado ou combinação de estados ganhe a capacidade de expulsar os Estados Unidos da Eurásia ou até diminuir significativamente seu decisivo papel de arbitragem."

A Guerra ao Terror e o Excesso de Imperialismo

Em 2000, o Pentágono liberou um documento chamado Visão Conjunta 2020, que delineava um projeto para alcançar o que eles chamavam, "Domínio de Espectro Total," como o projeto para o Departamento de Defesa no futuro. "Domínio de Espectro Total significa a habilidade das forças dos Estados Unidos operarem sozinhas ou com aliados, derrotar qualquer adversário e controlar qualquer situação através de diversas operações militares." O relatório "dirige o domínio de espectro total através de diversos conflitos, de guerra nuclear aos maiores teatros de guerras até as contingências de menor escala. Também se dirige a situações amorfas como manutenção da paz e ajuda humanitária não combatente." Mais, "O desenvolvimento de uma rede global de informação proporcionará o ambiente para superioridade nas decisões."

Como economista político, Ellen Wood, explicou, "Dominação ilimitada da economia global, e dos múltiplos estados que a administram, requer ação militar sem fim, em propósito ou tempo." Além do mais, "Dominação imperial em uma economia capitalista global requer um equilíbrio delicado e contraditório entre supressão da competição e manutenção de condições em economias concorrentes que geram mercados e lucros. Esta é uma das contradições mais fundamentais da Nova Ordem Mundial."

Em seguida ao 11/9, a "Doutrina Bush" foi posta no lugar, que pedia por "um direito unilateral e exclusivo para ataques preventivos, a qualquer hora, qualquer lugar, sem aprovação de acordos internacionais, para assegurar que 'nossas forças serão fortes o suficiente para dissuadir potenciais adversários de perseguirem o desenvolvimento militar na esperança de superar, ou igualar, o poder dos Estados Unidos'."

A OTAN realizou sua primeira invasão terrestre de uma nação em toda a sua história, com a invasão e ocupação do Afeganistão em outubro de 2001. A guerra do Afeganistão foi na realidade, planejada antes dos eventos de 11/9, com o colapso dos negócios do grande oleoduto entre as grandes companhias ocidentais de petróleo e o talibã. A própria guerra foi planejada no verão de 2001 com o plano operacional de ir a guerra em meados de outubro.

O Afeganistão é extremamente significativo em termos geopolíticos, à medida que, "Transportar todo o combustível fóssil da bacia do mar Cáspio através da Rússia ou Azerbaijão aumentaria grandemente o controle político e econômico da Rússia sobre as repúblicas da Ásia Central, o que é precisamente o que o Ocidente gastou 10 anos tentando impedir. Canalizar através do Irã enriqueceria um regime que os Estados Unidos têm procurado isolar. Enviar no longo caminho ao redor da China está completamente fora das cogitações estratégicas, seria proibitivamente caro. Mas oleodutos através do Afeganistão permitiriam aos Estados Unidos tanto perseguir seu objetivo de 'diversificar o fornecimento de energia' e penetrar nos mercados mais lucrativos do mundo."

Como apontou o San Francisco Chronicle apenas duas semanas após os ataques de 11/9, "Além da determinação americana de contra atacar os perpetradores dos ataques de 11/9, além da possibilidade de batalhas mais longas e arrastadas produzirem mais perdas civis nos meses e anos a frente, os interesses escondidos na guerra contra o terrorismo podem ser resumidos em uma única palavra: petróleo." Explicando melhor, "o mapa dos santuários e alvos terroristas no oriente médio e Ásia Central é também, em grau extraordinário, um mapa das principais fontes de energia do mundo no século 21. A defesa das fontes de energia - mais do que uma simples confrontação entre o Islã e o Ocidente - será o ponto de atrito primário do conflito global nas décadas por vir."

Entre os muitos estados notáveis onde há intercâmbio entre terrorismo e petróleo e reservas de gás de importância vital para os Estados Unidos e o Ocidente, estão Arábia Saudita, Líbia, Bahrein, os Emirados do Golfo, Irã, Iraque, Egito, Sudão e Algéria, Turquemenistão, Kazaquistão, Azerbaijão, Chechênia, Geórgia e Turquia oriental. Significativamente, "Esta região conta com mais de 65 por cento da produção de petróleo e gás natural do mundo." Além disso, "É inevitável que a guerra contra o terrorismo seja vista por muitos como uma guerra em favor das americanas Chevron, ExxonMobil e Arco; da francesa TotalFinaElf; da British Petroleum; da Royal Dutch Shell e outras gigantes multinacionais, que têm centenas de bilhões de dólares de investimento na região."

Não é segredo que a guerra do Iraque tinha muito a ver com Petróleo. No verão de 2001, Dick Cheney convocou uma Força Tarefa de Energia, que fez altamente secreta série de reuniões nas quais a política de energia era determinada pelos Estados Unidos. Nas reuniões e em vários outros meios de comunicação, Cheney e seus assessores se encontraram com altos funcionários e executivos da Shell Oil, British Petroleum (BP), Exxon Mobil, Chevron, Conoco. Na reunião que teve lugar antes de 11/9 e antes que houvesse qualquer menção da guerra do Iraque, documentos dos campos de petróleo do Iraque, oleodutos, refinarias e terminais de petróleo foram apresentados e discutidos, e "documentos da Arábia saudita e Emirados Árabes Unidos igualmente apresentava um mapa dos campos de petróleo de cada país, os oleodutos, refinarias e terminais tanqueiros." Tanto a Royal Dutch Shell como a British Petroleum receberam desde então os maiores contratos para aperfeiçoar os campos de petróleo do Iraque.

A guerra do Iraque, bem como a guerra do Afeganistão, também serve amplamente aos americanos especificamente, e mais amplamente, aos interesses imperiais estratégicos do Ocidente na região. Em particular, as guerras foram estrategicamente planejadas para eliminar, ameaçar ou conter as potências regionais, bem como instalar dezenas de bases militares na região, estabelecendo firmemente uma presença imperial. O propósito disso é principalmente dirigido a outros grandes jogadores regionais e especificamente, cercar a Rússia e a China e ameaçar o acesso deles as reservas de petróleo e gás da região. O Irã está cercado agora, com o Iraque de um lado e o Afeganistão do outro lado.

Observações finais

A parte 1 desse ensaio delineou a estratégia imperial EUA-OTAN para entrar na Nova Ordem Mundial, seguindo a derrocada da União Soviética em 1991. O objetivo primário foi concentrado no cerco da Rússia e da China e na prevenção do surgimento de uma nova superpotência. Os Estados Unidos deviam agir como um império hegemônico, servindo aos interesses financeiros internacionais na imposição da Nova Ordem Mundial. A próxima parte desse ensaio examina as "revoluções coloridas" através da Europa Oriental e Ásia Central, continuando a política dos Estados Unidos e da OTAN de contenção da Rússia e da China; enquanto controla o acesso as maiores reservas de gás natural e rotas de transporte. As "revoluções coloridas" têm sido a força central na estratégia geopolítica imperial, e analisá-las é a chave para compreender a Nova Ordem Mundial.

Andrew Gavin Marshall é associado de pesquisa com o Centro de Pesquisa sobre Globalização (CGR). Ele está atualmente estudando Economia Política e História na Universidade Simon Fraser.



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